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Ano 6 - Número 155
São João del-Rei, 2º quinzena de julho de 2010
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CRÔNICA
José Antônio Oliveira de Resende
E-Mail: jresende@ufsj.edu.br
professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.
     Milagre é uma coisa, mágica é outra. A mágica é enganação e divertimento. Todos se interessam pelo requinte que a mentira usa para se mascarar de verdade inesperada. A mágica é verdade mentirosa e mentira verdadeira.
   Com o milagre, a conversa é diferente. A coisa rola mais para o sobrenatural. É uma transformação que acontece somente se a pessoa acredita. O milagre é resultado da fé e interfere na história. Já a mágica, apenas dá um susto na história. Fé na mágica? Acho arriscado. Tem vezes que o coelho dorme e não sai da cartola. E aí, é só milagre que resolve.
   Nunca fui chegado à pescaria. Ficar parado ao lado de uma lagoa, que nem sapo desiludido... Ainda por cima, contando com a boa vontade de um peixe desavisado. Sem falar no barro, isca melando a mão, anzol espetando o dedo, mato irritando a perna. Vivo escapando dos convites de amigos simpáticos ao ofício profissional de São Pedro. Esse último ainda pescava porque precisava sobreviver. Agora, pescar para nada??? Invento gripes e alergias que nunca tive. Uma vez, até inventei casamento.
  Porém, semana passada quem me chamou para pescar foi o meu filho. Veio de boné, botina cano longo, molinete, isca, cesta e uma infância inteira como argumentos.
   – Vamos pescar, pai? Você me leva?
   Tentei alarmá-lo de que não era tempo disso. Até a piracema entrou na história.
   – É num pesque-pague.
   Maldito pesque-pague! Além de ir contra meus mais íntimos princípios de comodismo, ainda teria que pagar. Eu já estava fisgado. E lá fui eu, com vara, anzol, chumbada, isca e tudo.
   Ao lado da lagoa, arremessei e a linha não foi. De novo, e a linha impassível.
   – Tem que destravar o molinete, pai.
   Passaram-se minutos... os minutos formaram uma turminha de horas e eu ali, estátua viva da paciência segurando a vara. De repente, uma beliscada. Levantei a linha. Veio uma tilápia agarrada no anzol pelas suas barbatanas. Olhou para mim mais assustada que torcedor em torcida contrária e voltou depressa para a lagoa.    Logo depois, meu filho conseguiu fisgar um tronco e tive que arrebentar a linha. Arremessei com força alto: enrolei minha linha no fio de um poste. Outra linha arrebentada... e mais anzóis indo embora.
   Já estava quase escurecendo quando meu filho arregalou os olhos e gritou entusiasmado:
   – Peguei! Peguei!
   Um pacu. Imenso. Presinho no anzol.
   Aí, eu me animei. Quis logo pegar mais isca. Já pensou? Um outro pacu? Tarde demais: um galo e duas galinhas acabavam de comer toda a isca. Voltei desapontado ao som dos galináceos indo embora cacarejando felizes de papo cheio.
   A caminho de casa, meu filho me falou alegre:
   – Um peixão, pai! Eu peguei um peixão.
   Sorri concordando. Confesso que aquele pacu fez mágica: enganou a gente direitinho, pois conseguiu num só minuto fazer longas horas de frustração virarem a ilusão de nos sentirmos pescadores experientes. Meu filho e eu até já conversávamos sobre o melhor tipo de anzol, a melhor linha... Por outro lado, conseguir um peixão daquele depois de perder duas linhas, quatro anzóis, cinco chumbadas e uma lata de isca... isso sim, foi um milagre.
   Caniço, samburá e sarapó... muitas vezes o milagre faz o laço sem dar nó!
 
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